“O Viagra está na adolescência”
Não apenas por completar 15 anos de descoberta, mas também pela crescente popularidade entre os jovens
Em 1985 iniciaram-se pesquisas para encontrar um medicamento que tratasse angina e hipertensão, porém pacientes em teste relataram a ocorrência de ereções, o que redirecionou o estudo do então hoje conhecido Viagra (Sildenafil citrate). Há cerca de 15 anos atrás ele foi introduzido no mercado pela empresa farmacêutica Pfizer, resultando em uma incrível explosão de vendas. Pode-se dizer que o pequeno comprimido azul revolucionou a atividade sexual masculina. Em um curto período de tempo, tornou-se sinônimo de remédio para disfunção erétil, conseguiu alcançar o posto de 2º medicamento mais vendido no Brasil e impulsionou a pesquisa por novas drogas.
A “quebra de patente” no ano de 2010 tornou o medicamento muito mais acessível e supõe-se que tenha relação direta com o expressivo aumento de suas vendas. Porém, junto com essas informações, levantam-se importantes questões: os homens brasileiros andam com mais problemas de ereção do que anteriormente? Estarão as farmácias facilitando a venda do medicamento, não exigindo receita no ato da compra? Ou ainda, homens que não apresentam problemas em seu desempenho sexual estariam fazendo uso da droga de maneira recreacional e indevida? Tais levantamentos são intrigantes, porém a última pergunta é a que mais preocupa os especialistas. O problema ainda adquire uma esfera mais alarmante quando são adolescentes, em pleno início da atividade sexual, que adquirem o medicamento. De fato, dados apontam que o uso indiscriminado do comprimido por garotos é comum no Brasil.Uma pesquisa realizada com jovens entre 18 e 19 anos, na região de Houston-EUA, constatou que muitos deles já haviam usado o Viagra alguma vez em suas vidas. Um total de 415 jovens foram convidados a participar deste estudo, e deste número, 53 jovens disseram ter usado Viagra. As perguntas eram simples, tais como: Com quantos anos você usou o Viagra pela primeira vez? Por que você decidiu experimentar o medicamento? Quem estava com você no momento? Onde você adquiriu o medicamento? Como ficou sabendo da existência do Viagra? Quais são as consequências perigosas do uso? A maioria dos jovens que participaram acredita que a curiosidade e a pressão contribuíram para seu uso inicial, e muitos deles ainda disseram estar com seus amigos ou com suas namoradas. Eles também disseram que ouviram pela primeira vez sobre o medicamento em anúncios televisivos, com membros da própria família ou em eventos esportivos, e obtiveram a pílula através de amigos ou até mesmo roubando o medicamento de seus pais ou avós. Após o uso, alguns notaram certa tontura e ereção prolongada.
O estudo descrito acima nos ajuda a compreender como e por que um garoto é levado a utilizar o medicamento imprudentemente, além de nos mostrar que não é um fenômeno restrito ao nosso país. Se o jovem está tomando o remédio para melhorar sua ereção é porque ela não está boa, o que pode ser um problema apenas de ansiedade e insegurança. O nervosismo sobre o ato sexual em si, o medo de provocar uma gravidez indesejada ou até mesmo sobre como colocar um preservativo adequadamente. Portanto, eles usam o medicamento para “mascarar” essa dificuldade e falta de autoconfiança, que pode ser resolvida buscando orientação médica ou psicológica.
Segundo a psiquiatra e professora Carmita Abdo, da USP, que chefiou um projeto em 2008 a respeito da sexualidade dos brasileiros, os que mais usam o medicamento continuam sendo homens com idade superior de 50 anos, mas ele vem sendo cada vez mais requisitado pelos adolescentes. Como um agravamento, ela também afirma que “sempre há uma doença por trás da disfunção erétil, seja psíquica ou física”. O homem pode ter diabetes, hipertensão, colesterol e até mesmo depressão. Por isso, é imprescindível a ida a um especialista que saiba lidar com o assunto.
Não se pode também deixar de lado a ocorrência de efeitos colaterais, que podem ser sérios caso o paciente já apresente certas doenças ou esteja tomando remédios cujos princípios ativos possam interagir com o Viagra. Dores de cabeça, taquicardia, rubor fácil, dores musculares e azia são alguns deles, além dos sintomas já citados pelos jovens no estudo descrito.
A facilidade com que eles obtêm o produto também contribui com o uso extensivo. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deixa claro que remédios de tarja vermelha devem ser vendidos somente mediante apresentação de receita, tal como o Viagra. No resultado de um estudo publicado pela revista Saúde Pública foi constatado que 100% dos usuários obtiveram o medicamento sem receituário, evidenciando a falta de controle na comercialização. Concluí-se então que o uso indiscriminado de medicamentos, tais como o Viagra, é prejudicial à saúde física e psicológica, e que o controle para a venda desse tipo de medicamento deve ser feito de forma mais rigorosa.
Cynthia Fernandes
Sophia Correa Rodrigues
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